Ser a linha de frente de um fundo de Venture Capital – responsável por todos as interações com empreendedores – foi o trabalho mais divertido do mundo. Mais legal ainda, era APENAS investir em negócios que desenvolvem produtos e serviços para gerar transformação social positiva nos consumidores das classes C, D e E no Brasil. Com isso, fica claro que o meu ponto de vista era mais que privilegiado. Não só conheci centenas de empreendedoras e empreendedores incríveis, mas também tive a honra de estar sempre cercada de pessoas em prol de um capitalismo mais consciente.

Mesmo assim, sempre buscamos formas de maximizar nosso impacto social. Seja investindo em mais mulheres, apoiando negócios em comunidades, promovendo workshops sobre diversidade… Contudo, o espectro de empreendedores que passava pelo nosso funil sempre se manteve bem homogêneo. O ápice dessa reflexão ocorreu após um evento que promovemos no Cubo, no qual utilizamos majoritariamente imagens de crianças negras, alunos de escolas públicas brasileiras, na divulgação. Na hora dos pitches, todavia, todos os empreendedores que apresentaram eram homens, brancos de classe média alta. No dia seguinte fomos marcados em um post criticando a dicotomia entre a expectativa pré evento e a realidade branca, misógina e heteronormativa que apresentamos.

Alguns já achavam que o que estávamos fazendo foi bacana porque falava de educação. Outros, acharam que isso era padrão e o importante era transformar as escolas pública. No caso do comentário, por exemplo, vender um produto incrível para os colégios municipais (que era o que estávamos propondo) não era suficiente. Para ela, isso também precisaria ser feito por fundadores minimamente diversos entre si. Lendo assim, parece tão óbvio. Até a McKinsey já cansou de publicar relatórios sobre como times diversos performam melhor. Mas porque não consegui selecionar negócios com fundadores de perfis diferentes?

Tudo que acontecia apenas reforçava essa pulga atrás da minha orelha. Por sorte, estive no SOCAP 2017 e fui no lançamento do Innovation Blind Spot, do Ross Baird. Até terminar de ler o tal livro, do fundador do Village Capital, eu nunca soube exatamente como lidar com essa questão. Como mulher, jovem, trabalhando com inovação, senti na pele as dores de ser minoria nas reuniões de time, nos happy hours e em absolutamente todos os eventos de empreendedorismo que frequentava. Mas o que eu poderia fazer sobre isso? Quando falávamos de negros então, eu tinha ainda menos ideia de por onde começar, porque eu perdia o lugar de fala.

Como o conteúdo está disponível apenas em inglês, vou abordar aqui 3 dos pontos cegos que ele detalha no livro. São ótimas provocações que trazem luz a questões estruturais do mercado de investimento, que nem sempre são colocadas em questão quando falamos sobre diversidade.

  • O modelo de Venture Capital só se viabiliza apoiando startups em estágio avançado – e por isso, talvez só consiga apoiar fundadores de classe média ou alta

Para quem não conhece, fundos de venture capital são empresas cujo modelo de negócio é:

1o – Captar recursos para investir em negócios – comprando participação acionária

2o – Selecionar os negócios certos para investir

3o – Fazer esses negócios crescerem e vendê-los para terceiros

E esses fundos ganham dinheiro da seguinte forma:

  1. 2% ao ano do total sob gestão
  2. 20% de taxa de performance, que é mais ou menos 20% do “lucro” obtido com a venda de todas as empresas.

O (b), se vier, só vai vir em alguns anos, então vamos focar no (a) – que é vulgarmente o faturamento dessa empresa:

Montante sob gestão (R$) Receita anual (R$) Receita mensal (R$)
100 mil 2 mil 166,67
1 milhão 20 mil 1.666,67
10 milhões 200 mil 16.666,67
100 milhões 2 milhões 166.666,67

Vemos que é praticamente impossível estruturar um fundo de investimento, de Venture Capital ou Private Equity, com menos de 10 milhões de reais sob gestão. E que ainda assim, fica apertado. Para se viabilizar, o ideal seria captar no mínimo R$35 milhões, mas a maioria dos investidores mira algo em torno de R$ 100 milhões.  

Assim, com um fundo desse tamanho na mão, você ganha outro problema. Para exemplificar, vou usar um fundo de R$ 50 milhões. Descontando os 2% pagos ao ano por 10 anos de vida do fundo (a) diretamente ao investidor, temos 40 milhões disponíveis para comprar empresas, que pode se distribuir de diversas formas:

Número de empresas investidas Tíquete médio
5 8 milhões
10 4 milhões
20 2 milhões
50 800 mil

Nesse caso, por exemplo, teríamos que investir em QUARENTA empresas para chegar a um tíquete médio de 1 milhão de reais. Beleza… e ai? Qual o problema, você me pergunta?

O fundo dura 10 anos, mas normalmente você só pode investir nos primeiros 5 anos. Assim, o fundo teria que investir em 8 empresas por ano – o que é mais que 1 empresa a cada 2 meses. O que para mim, que já teve que fazer essas análises, sei que é absolutamente surreal. Cada processo dura no mínimo 5 meses e é um trabalho bastante intenso e técnico. E depois, ainda é preciso monitorar todos esses negócios, ser muito presente, ajudar com governança e efetivamente agregar valor para as empresas crescerem. Quanto menor o tíquete, mais inicial tenderá a ser o estágio da empresa, e mais atenção e tempo do investidor ela irá requerer – criando quase uma exponencial de complexidade.

Ah! Com qual orçamento, mesmo? 67 mil reais por mês. Enfim, bem difícil fazer a conta fechar (equipe, aluguel, advogados, custos, etc). Por isso, o padrão acaba sendo investir 3 a 5 milhões em apenas 10 empresas.

Analisando de perto uma empresa que está captando 3 a 5 milhões de reais e que cresceu o suficiente para passar pelo funil de um fundo de investimento, ela já possui um produto pronto, já no mercado, e uma equipe minimamente estruturada. Chegar aqui que é o grande desafio. O fundador provavelmente teve que investir seu capital próprio ou articular amigos e familiares (FFFs – Friends, Family and Fools) para dar aquele empurrãozinho inicial. Se você não vem de um círculo social que consiga te apoiar financeiramente, raramente a empresa conseguirá chegar nesse ponto de maturidade – infelizmente. Isso é o que o Ross chama de – “Its tough to bootstrap if you don’t have boots”.

  • O nosso filtro é enviesado inconscientemente. E afinidade conta MUITO.

Nós recebemos muitas coisa. Muitas mesmo. Então temos que filtrar de acordo com o nosso bom senso, que é tendencioso – e acaba privilegiando o que já conhecemos e vimos que funciona. Os emails públicos de fundos de investimento são normalmente muito ativos. Facilmente superam mil pedidos de investimento no ano. A maioria, claro, não tem encaixe nenhum com o fundo, porque as teses de investimento (que dizem em que o fundo pode investir) são muito específicas e infelizmente não é muito fácil de entender o que cada investidor está pedindo. Mas provavelmente estamos cortando muita coisa boa sem querer.

Como determinamos o que passa para a outra fase?

    1. Quando pessoas que confiamos nos indicam um negócio, olhamos com mais carinho, afinal, aumenta as chances de ter fit
    2. Quando lemos algum trecho que menciona palavras que conhecemos, ou que se aproximem da visão que temos de uma startup ideal, também temos mais chances de olhar.

O problema é que os negócios que são muito diferentes, ou que não necessariamente fazem parte do nosso imaginário, ou da nossa rede de relacionamentos, quase sempre acabam levando um não de cara. Os nossos viéses são inconscientes e a não ser que criemos políticas para privilegiar empresas com certas características, diferentes, nunca conheceremos estes fundadores. E sem uma conversa inicial, jamais receberão os feedbacks reais e necessários para que um dia voltem para dentro do funil.

Não faz parte da natureza humana escolher ser sócio de alguém com que você não tem afinidade – e é difícil para caramba desenvolver afinidade com alguém que é muito diferente de você. Por isso, infelizmente, o meio das startups é bem homogêneo demograficamente.

Uma vez que sabemos disso, todavia, podemos colocar aquele esforcinho extra para não implicar com coisas bobas e nos abrir para pessoas diferentes, não é mesmo?

Quando sentei do outro lado da mesa, claramente, isso foi o que mais eliminou empresas no processo. Todos os número e dados conferem, mas tem algo ali que não foi tão bom, mas você não sabe exatamente o que é? Sem química? Arrisco dizer que pode ser o seu viés inconsciente falando e que se você não se atentar a isso, só vai investir em mais gente do mesmo clubinho.

  • Venture Capital ganha dinheiro mesmo vendendo empresas

Por isso, o alvo de investimento são negócios que poderão representar aquisições relevantes no futuro. Isso significa que privilegia-se investir em crescimento acelerado, queimando caixa e captando mais dinheiro se for necessário. A tradução de Venture Capital é Capital de Risco, e a jornada de crescimento dos negócios investidos levam esse nome a ferro e fogo. Os investidores exigem planos de negócio estruturados e modelagens financeiras robustas, mas no fim do dia, pouco disso continua de pé depois de pisar com tanta força no acelerador pós investimento. Fundadores que empreendem por necessidade, buscando segurança e estabilidade para si próprios e suas famílias dificilmente se encaixarão dentro dos alvos de investimento de Venture Capital.

Mas e ai?? O que fazer para investir em times mais diversos?

  • Tenha clareza de qual é o seu viés. Conheça bem o seu perfil e monitore a diversidade dos empreendedores que passam pelo seu funil. Se for muito homogêneo, crie políticas para conversar com empreendedores de outros círculos e perfis. Você aprenderá bastante com isso.
  • Comunique com clareza e muito detalhe o que você espera dos empreendedores, para que a quantidade de cold calls se reduza e você tenha mais tempo para analisar todos com detalhe.
  • Trabalhar em parceria com investidores anjo e aceleradores que estejam cientes dessa questão, como a Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia. Outro exemplo genial é a parceria da Artemisia com o Facebook – a Estação Hack.
  • Expanda as suas referências se familiarizando com cases e casos de sucesso não tão óbvios, que fogem do comum. Quanto mais referências de sucesso conhecermos, menos vamos pensá-las como sendo exceções. O livro traz vários exemplos maravilhosos, como a Fin Gourmet.
  • Estruturar fundos de investimento com modelos de negócio diferentes, mais flexíveis, que também favoreçam negócios sustentáveis e geradores de receita. O do Village Capital, por exemplo, investe através de dívidas que vão se repagando pouco a pouco, com a própria receita da empresa. Este report do Transform Finance trabalha um pouco estas ideias.
  • Investir parte do seu fundo em negócios de estágio inicial, como a pioneira iniciativa Vox Labs, da Vox Capital.

O livro apresenta ainda mais pontos cegos e entra bem no detalhe das soluções. É uma leitura rápida e leve, repleta de exemplos interessantíssimos de empreendedores dentro e fora do portfólio do Village Capital. Os casos são bastante pautados na realidade americana, mas se passam em áreas remotas dos Estados Unidos, se contrapondo à literatura tradicional de startups. Ah! Quem quiser pode comprar aqui que eles entregam no Brasil.

Boa leitura!