Gabriela Chagas, Tel Aviv

Na palestra inaugural do programa de Empreendedorismo da Universidade de Tel Aviv, tivemos o prazer de conhecer o Diretor de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores de Israel. Ele trabalha nessa agência do governo há mais de 20 anos e compartilhou um pouco sobre como a economia do país deixou de se basear na exportação de laranja e migrou para o desenvolvimento de negócios tecnológicos. Como a única brasileira em uma sala de aula repleta de americanos, senti que era minha responsabilidade compartilhar um pouco de otimismo para colegas que, como eu, empreendem em países que não tem uma cultura de inovação.

1. Inovação não advém de força divina – porém, pode florescer em apenas algumas décadas, caso se invista de forma sistemática, contínua e organizada.

Junho do ano passado, a Índia promoveu o dia internacional do Yoga com eventos em todo o mundo, que contaram com a presença de milhares de praticantes. Todos conectam Yoga com a Índia, mas apenas recentemente que o país decidiu se apropriar da prática milenar e compartilhar ativamente em outros países. E isso é exatamente o que Israel está tentando fazer com a inovação hoje em dia.Quando você pensa em Israel, todavia, duvido que isso seja a primeira coisa que aparece na sua cabeça. Quando meus amigos descobrem que estou aqui, recebo as seguintes reações:

a) Por que Tel Aviv? E as bombas? Os terroristas? o Irã? O Estado Islâmico??

b) Você é judia?

c) Coloca esse bilhete no [inserir site religioso] para mim?

E agora que estou morando aqui há alguns meses, a maioria das pessoas acha que sou louca quando digo que estou aqui para aprender sobre empreendedorismo e inovação. A busca por  qualidade de vida, uma comunidade acolhedora e conexão divina ainda são os maiores atrativos de turistas e imigrantes. No entanto, o calçadão de Tel Aviv e o espírito mais que inspirador de Jerusalém são apenas a superfície do espírito israelense. A nação nunca teve muita escolha. Eles tiveram que inovar. E não falo só de aspectos bélicos. Tiveram até que descobrir como dar a sua crescente população o que comer e beber entre as terras secas e desérticas do Oriente Médio. A oração e a esperança de um mundo melhor só levaram até certo ponto. Foi necessário empreender todos os serviços e produtos necessários de um país, para que o sonho compartilhado dessa nação se tornasse realidade. Algo ainda mais extremo em um época em que nada poderia ser dado como certo. Você precisava encontrar uma solução.

Não havia espaço para “talvez” ou “Eu vou fazer isso mais tarde”.

E com essa mentalidade, a poucos meses do 70º aniversário de Israel, fica óbvio que o país criou novos padrões internacionais para políticas públicas de inovação e incentivos ao empreendedorismo tecnológico. Para aqueles interessados ​​em uma explicação detalhada do “milagre” econômico de Israel, eu recomendo que leiam Startup Nation, dos autores Saul Singer (com quem tive o privilégio de conversar no verão passado) e Dan Senor. Descrevo agora só um pouco de como Israel fez o que fez.

Há mais de 20 anos, Israel é o país que mais investe o seu PIB em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)

Investimento em P&D em % do PIB – OCDE, 2018 |  Verifique o ranking completo aqui

Em 1990, o país gastava apenas um pouco acima da média da OCDE, contudo, uma manobra política dramática aumentou significativamente essa percentagem. Por que isso importa? Fazer a mesma coisa esperando resultados diferentes é a definição de insanidade. Tenho certeza de que todo Brasileiro já ouviu o seguinte canto de esperança: Brasil, o país do futuro. Felizmente, eu estou esperando esse dia há apenas 23 anos – muito pouco em comparação com os 80 anos que os meus avós tem aguardado. Em vez de falar sobre o clima em um elevador de São Paulo, o bate papo padrão agora é bufar sobre mais algum escândalo político (afinal, já vimos de tudo). A maioria de nós brasileiros, já está tão deprimida que é difícil acreditar na política ou em qualquer assunto relacionado. Acredito, no entanto, que o que precisamos são exemplos realistas e passos claros a serem seguidos.

Assim como nós, Israel foi liderado pelo capitalismo de estado e por uma abordagem distintamente corporativa. Depois da Guerra do Yom Kippur em 1973, a dívida pública superou 300% do PIB. E levaria pelo menos mais 15 anos para implementar um programa pesado de estabilização econômica para controlar sua hiperinflação e inaugurar algum caminho para a inovação. Hoje, Israel ainda é um país com um chefe de Estado que enfrenta graves acusações de corrupção, o que não é ideal, é claro, mas nos dá esperança de que você não precisa ser uma cidade no Vale do Silício ou um país nórdico, para conceber um ecossistema de empreendedorismo de primeira linha. Neste caso especificamente, o que está direcionando o investimento em P&D não é investimento direto do governo nem de universidades. É quase tudo feito pelo setor privado. Sim, empresas como a minha e a sua estão investindo no novo, mesmo antes de saberem exatamente para o que vai servir. As empresas israelenses entendem que não adianta só ir para conferências, assistir TEDs ou se inscrever em cursos de futurismo, se você não se comprometer seriamente com P&D. Mudanças nessas proporções requerem tempo e consistência.

O PIB do Brasil é de cerca de 1,7 trilhões de dólares – o 7º maior do mundo => 1,15% disso é 20,38 bilhões de dólaresIsrael é 318,7 bilhões USD – 50º maior do mundo => 4,27% disso é 13,61 bilhões de dólares

Então, sim, o Brasil investe mais do que Israel em P&D. Mas então por que este mini país possui tantas patentes, empresas listadas na Nasdaq e doze Prêmios Nobel? Qual é a pegadinha?

2. COMO se investe importa mais do que QUANTO.

Desde o primeiro momento em que Israel começou, já havia densidade de talentos (Einstein, Freud … para citar alguns). Mas até os anos 90, era uma nação semi-socialista – cheia de controle governamental, e com quase nenhum incentivo para empreender tecnologicamente. Nos últimos 20 anos, no entanto, houve uma mudança séria na política local para acelerar os interesses comerciais. E a partir daí, diversos segmentos da economia começaram a ter resultados e a se aquecer. Embora o slogan seja Startup Nation, uma das maiores ações de Israel, por exemplo, foi encorajar multinacionais a abrirem subsidiárias em Israel – normalmente postos de P&D. 9% dos empregos do país são mantidos por multinacionais e 28% das exportações também.

Israel admite que o governo não sabe o que será melhor para as empresas, então cria infra-estrutura para essas entidades direcionarem a inovação de acordo com seus próprios interesses. Um risco que tem valido a pena. Mesmo que o governo tenha que ser responsável com o dinheiro dos contribuintes, não precisa ser conservador. O Estado israelense escolhe ser responsável removendo o risco de seus cidadãos, estimulando-os a tomarem as melhores decisões e alavancando seu potencial.Um fato comum é que a primeira empresa fundada por alguém provavelmente irá falhar. Mas as chances de sua segunda falir são bem menores. Se você acha que a Mobileye, adquirida por US$ 15,3 bilhões de dólares, foi fundada por marinheiros de primeira viagem, você está errado. A prática nem sempre traz perfeição, mas arrisco dizer que é o único jeito de criar musculatura empreendedora. Em vez de compartilhar livros inspiradores e confiar em blogs de auto ajuda, o governo faz com que seus cidadãos possam ter recursos financeiros para falhar, através de mecanismos que não comprometam tão fortemente a vida dos empreendedores e os seus bens pessoais em caso de falência.

Além disso, Israel criou um enorme incentivo para que o dinheiro privado fosse arriscado em Venture Capital. Como?O governo tem programas que cobrem investimentos privados em empresas. Se uma empresa estiver captando US$ 1 milhão de dólares, você provavelmente só precisará investir US$ 500 MIL – e o resto pode ser que venha de recursos públicos (reembolsáveis apenas em caso de sucesso, por meio de royalties). Bom para as empresas? Sim. E ainda melhor para o governo, que praticamente garante que está investindo em ativos comercializáveis e estará alinhado aos interesses do mercado – gerando ganhos futuros. Os critérios de elegibilidade aceitam projetos em qualquer setor, desde que sejam atrativos do ponto de vista de negócios ​​e tenham um nível tecnológico relevante e significativo.Investir com algemas, em setores específicos, gera mais frustração do que ganho. Brasileiros trabalhando com capital de risco podem observar isso, comparando a baixa porcentagem de negócios que vencem editais e que efetivamente chegam ao mercado ou olhando de perto alguns portfólios de fundos de venture capital moldados pelo governo.

Principais atores do capital de risco em Israel

Imagem: Blue Future Partners

3. O que importa mesmo é reunir gente diferente que compartilha do mesmo propósito.

Nem preciso dizer que estou lidando diariamente com choques culturais um tanto quanto bizarros. Mas uma coisa me faz me sentir em casa – as duas nações foram construídas por imigrantes dos mais diferentes lugares do mundo. Aqui, todavia, ainda que sejam MUITO diferentes, a população em geral tende a compartilhar um propósito semelhante, pelo senso de identidade do judaísmo. Bunkers e alertas anti-míssel recorrentemente lembram a população dos riscos de estar aqui, mas, para eles, o propósito maior do Estado Israelense justifica isso tudo. E em contrapartida, claro, o governo tende a investir no seu povo, seu principal ativo.

Sugiro que nossa sociedade brasileira, segregada do nosso próprio jeito, se abra para a força de um propósito compartilhado. Os brasileiros, mais parecidos que diferentes, também podem abraçar a educação como a nossa própria arma contra os duros conflitos sociais que enfrentamos. Tanto aqui quanto lá, a palavra chave é empatia, para conseguirmos combater os nossos problemas, tão sérios quanto e não justificáveis.

Imagens

https://www.haaretz.com/israel-news/MAGAZINE-in-photos-hundreds-hold-tel-aviv-stretch-fest-for-international-yoga-day-1.5487302

https://data.oecd.org/rd/gross-domestic-spending-on-r-d.htm

www.medium.com/@BlueFuture/venture-capital-in-israel-landscape-overview-f9d733fa62f9